Leandro Gomes de Barros, o Príncipe dos Poetas

Leandro Gomes de Barros, o Príncipe dos Poetas

 

Se existiu um primeiro sem segundo, este é Leandro Gomes de Barros, considerado o criador da Literatura de Cordel. O paraibano, nascido em Pombal, inovou nas rimas e na publicação e distribuição de seus poemas. Por se tornar esta referência histórica da cultura popular, foi o nome escolhido para batizar o Edital Culturas Populares lançado nesta segunda-feira (5/6) pelo Ministério da Cultura (MinC), que vai premiar 500 iniciativas com prêmios que totalizam R$ 6, 8 milhões.

O cordelista fez correr seu nome e seus versos na boca do povo – “soletrado com amor e admirado com fanatismo”, na avaliação de Câmara Cascudo na obra “Vaqueiros e Cantadores”. Considerado pelo folclorista “o mais lido dos escritores populares”, Barros “escreveu para sertanejos e matutos, cantadores, cangaceiros, almocreves, comboieiro, feirantes e vaqueiros”.

O cordelista nasceu em 1865, na Fazenda da Melancia, no município de Pombal, mas não se aquietou por ali. Educado pela família do Padre Vicente Xavier de Farias (1823-1907), mudou-se em companhia da família “adotiva” para a Vila do Teixeira, que se tornaria o berço da Literatura Popular nordestina, onde permaneceu até os 15 anos de idade em contato com cantadores e poetas. De Teixeira, mudou-se para as cidades pernambucanas de Jaboatão, Vitória de Santo Antão e Recife.

A mudança de residência, no entanto, nunca significou acomodação. Isso porque Barros, além de notável poeta, tornou-se um editor pioneiro na publicação dos chamados folhetos, depois conhecidos como cordéis pela forma com que eram expostos para venda (pendurados em cordas, cordéis ou barbantes). O cordelista tornou-se proprietário de uma pequena gráfica, a Typografia Perseverança, criada única e exclusivamente para imprimir e distribuir seus folhetos.

De acordo com a Academia Brasileira de Literatura de Cordel (ABLC), o vigoroso programa editorial de Barros levou a literatura de cordel às mais distantes regiões, graças ao seu bem sucedido projeto de redistribuição. Conhecido por viajar pelo sertão para divulgar e vender seus poemas, o paraibano figura entre os grandes cordelistas do País referendados pela ABLC. “Leandro Gomes de Barros escreveu com beleza poética e histórica e nos emprestou régua e compasso para a produção desse tipo de texto. Além disso, foi o primeiro editor do seu tempo”, comenta o presidente da ABLC, Gonçalo Ferreira da Silva.

Assim, o patrono da Literatura Popular em Verso foi o primeiro a publicar, editar e vender seus poemas, acumulando múltiplas funções, e um dos poucos poetas populares a viver unicamente de suas histórias rimadas.

Príncipe dos Poetas
Na crônica intitulada Leandro, O Poeta, publicada no Jornal do Brasil em 9 de setembro de 1976, Carlos Drummond de Andrade chamou Leandro Gomes de Barros de “Príncipe dos Poetas”, reforçando o caráter popular de sua literatura: “Não foi príncipe dos poetas do asfalto, mas foi, no julgamento do povo, rei da poesia do sertão, e do Brasil em estado puro”. Segundo Drummond, “Leandro foi o grande consolador e animador de seus compatrícios, aos quais servia sonho e sátira, passando em revista acontecimentos fabulosos e cenas do dia a dia, falando-lhes tanto do boi misterioso, filho da vaca feiticeira, que não era outro senão o demo, como do real e presente Antônio Silvino, êmulo de Lampião”.

Barros escreveu sobre assuntos diversos, como a política, a sociedade, o cangaço, o amor e a religião. “Sintonizado com as coisas do seu tempo e muito curioso em relação às do passado, não se limitou a reaproveitar os temas correntes como a gesta do boi (Boi Misterioso), o cangaço ou temas europeus (Carlos Magno e o Rei Arthur), criando uma poesia bem brasileira”, defende a bibliotecária Lúcia Gaspar, da Fundação Joaquim Nabuco. A obra do cordelista abrange todos os gêneros e modalidades da literatura popular: peleja, romance, gracejo, sátira e crítica social.

A obra de Barros foi estudada por diversos pesquisadores e influenciou escritores renomados, como Ariano Suassuna, que se inspirou em dois folhetos de LGB – “O enterro do cachorro” e “A história do cavalo” que defecava dinheiro – para escrever atos da obra “O Auto da Compadecida”. Ariano ainda chegou a citar o poema “O mal e o sofrimento”, do cordelista, como a formulação do mais grave problema da humanidade.

O mal e o sofrimento

Se eu conversasse com Deus
iria Lhe perguntar
por que é que sofremos tanto
quando viemos para cá?
Que dívida é essa
que o homem tem de morrer para pagar?
Perguntaria também
como é que Ele é feito
que não come, que não dorme
e assim vive satisfeito.
Por que foi que Ele não fez
a gente do mesmo jeito?
Por que existem uns felizes
e outros que sofrem tanto,
nascidos do mesmo jeito,
criados no mesmo canto?
Quem foi temperar o choro
e acabou salgando o pranto?

Leandro Gomes de Barros

A Academia Brasileira de Literatura de Cordel estima que o poeta deixou um legado de cerca de mil folhetos escritos. No entanto, a obra de Barros nunca foi integralmente reunida. A Fundação Casa de Rui Barbosa, vinculada ao Ministério da Cultura, disponibiliza a Coleção Digital LGB, um banco de dados composto por folhetos digitalizados.

À disposição do público, os folhetos pertencem a duas Coleções da Casa de Rui Barbosa: a de Sebastião Nunes Batista, filho do poeta popular e editor Francisco das Chagas Batista, contemporâneo e conterrâneo de Barros; e a da própria Instituição, caracterizada pelos folhetos que estão nos acervos de diversos pesquisadores, dentre os quais Manuel Cavalcanti Proença, Orígenes Lessa e Manuel Diegues Júnior. No primeiro conjunto, destacam-se os folhetos raros publicados a partir de 1906. O segundo conjunto compõe-se dos folhetos reeditados a partir da década de 40 por editores e poetas que adquiriram a propriedade literária de Leandro, tais como João Martins de Ataíde (em 1921), José Bernardo da Silva e outros.

O acervo digital integra a pesquisa “Folhetos de Papel: Memória do Cordel”, realizada pela pesquisadora Ivone Maya, que ressalta: “são esses bens abstratos – única riqueza perene – materializados nos poemas de Leandro, fragilizados pela ação do tempo, mas pertencentes ao patrimônio popular e conservados pela transmissão oral, que nos dispusemos a preservar do esquecimento”. Maya define Leandro Gomes de Barros como “o poeta popular mais apreciado do seu tempo e parâmetro para outros: sempre comparado, mas nunca superado”.

Os Traços de Leandro Gomes de Barros

A cabeça, um tanto grande e bem redonda,
O nariz, afilado, um pouco grosso: As orelhas não são muito pequenas,
Beiço fino e não tem quase pescoço.

Tem a fala um pouco fina, voz sem som,
Cor branca e altura regular,
Pouca barba, bigode fino e louro,
Cambaleia um tanto quanto no andar.

Olhos grandes, bem azuis, têm cor do mar: Corpo mole, mas não é tipo esquisito –
Tem pessoas que o acham muito feio,
Mas a mamãe, quando o viu, achou bonito!

Auto-retrato de Leandro Gomes de Barros na quarta-capa do folheto Peleja de Manoel Riachão com o Diabo.


 

Assessoria de Comunicação
Ministério da Cultura
Com informações do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional