Cordel: literatura além da diversão e informação

Cordel: literatura além da diversão e informação

 
Com rima, métrica e oração, se conta todo o sertão. É de forma elaborada que o Nordeste brasileiro se apresenta por escrito, em papel jornal, no folheto de cordel. Em processo de registro como Patrimônio Imaterial pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan/MinC), a Literatura de Cordel utiliza regras clássicas em seus versos, ao mesmo tempo em que se consolidou por acessar um público que vai de estudiosos a analfabetos. Isso por sua inicial condição de oralidade, surgindo para ser mais memorizada, cantada e fruída coletivamente do que para ser lida de forma individual.

Trazido pelos portugueses, o cordel surgiu no Brasil na segunda metade do século XIX. Os folhetos, vendidos nas feiras, tornaram-se a principal fonte de divertimento e informação para a população, que via neles o jornal e a enciclopédia, de maneira quase simultânea. O marco inicial do cordel no País é o escritor paraibano Leandro Gomes de Barros (1865-1918), homenageado do Prêmio Culturas Populares 2017, lançado em junho pelo Ministério da Cultura (MinC).

Em 1893, o paraibano de Pombal publicou os seus primeiros poemas, considerados os primeiros registros oficiais da Literatura de Cordel. Atualmente, Leandro é elevado a patrono da Literatura Popular em Verso, sendo o primeiro a publicar, editar e vender seus poemas. Além de um legado de aproximadamente mil folhetos escritos – embora não existam registros da totalidade desse volume -, o paraibano se tornou conhecido por um vigoroso programa editorial.

Oralidade

No início da publicação da literatura de cordel no País, muitos autores de folhetos eram também cantadores, que improvisavam versos em fazendas, vilarejos e pequenas cidades pequenas do sertão. “Com a criação de imprensas particulares em casas e barracas de poetas, mudou o sistema de divulgação. O autor do folheto podia ficar num mesmo lugar a maior parte do tempo, porque suas obras eram vendidas por folheteiros ou revendedores empregados por ele”, explica a bibliotecária Lúcia Gaspar, da Fundação Joaquim Nabuco. Na ocasião, os autores da Literatura de Cordel ficaram conhecidos como poetas de bancada ou de gabinete.

Desde então, os temas tratados pelos cordelistas eram os mais variados possíveis: as aventuras de cavalaria, as narrativas de amor e sofrimento, as histórias de animais, as peripécias e diabruras de heróis, os contos maravilhosos e uma infinidade de outros, que a memória popular encarregou-se de preservar e transmitir. Aos poucos, o poeta nordestino incorporou fatos mais próximos do público, ocorridos em seu ambiente social: façanhas de cangaceiros, acontecimentos políticos, catástrofes, milagres e até mesmo a propaganda, com fins religiosos e comerciais.

“A Literatura de Cordel já foi o jornal do Nordeste, o veículo de comunicação de maior credibilidade entre nordestinos”, afirma o cordelista Gonçalo Ferreira da Silva, presidente da Academia Brasileira de Literatura de Cordel (ABLC). O representante destaca a região Nordeste como um grande celeiro de poetas, mas afirma que o gênero se encontra em todo o País, de forma revigorada. “Temos visto o aumento do interesse de escolas e editoras. É interessante, parece que estamos em plena evolução”, completa Ferreira, defensor dessa “maravilhosa manifestação da inteligência brasileira”.

De acordo com o Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular (CNFCP) do Iphan, entidade vinculada ao MinC, o cordel atingiu maior expressão no Nordeste graças às condições sociais e culturais peculiares daquela região, tais como: o cangaço, a proliferação de manifestações messiânicas e os desequilíbrios socioeconômicos provocados, entre outros fatores, pelas secas periódicas.

Acervo

Instituições como o CNFCP e a Fundação Casa de Rui Barbosa (FCRB) contam com ricos acervos da Literatura de Cordel. O objetivo é preservar, conservar e disponibilizar coleções únicas no mundo, normalmente caracterizadas pela raridade, originalidade e antiguidade. Esses fatores são aliados ao grande interesse do público na temática.

Segundo a chefe do serviço de Biblioteca da FCRB, Dilza Bastos, entre o acervo digitalizado da Casa de Rui Barbosa, a Literatura de Cordel é o conteúdo mais acessado, à frente das obras completas de Rui Barbosa. Em 2016, os 2.340 folhetos digitalizados tiveram 16.267 acessos – se consideradas as páginas visualizadas, o número sobe para 63.883. “Estão disponibilizados os folhetos que estão sob domínio público ou aqueles que tiveram autorização específica para esse acesso. São obras raras, mas disponíveis à leitura e pesquisa”, reforça Dilza.

No total, a Fundação Casa de Rui Barbosa, entidade vinculada ao MinC, conta com uma coleção composta de 9.000 folhetos de cordel e de obras sobre o tema, incluindo centenas de folhetos raros. Organizado a partir de 1960, trata-se de um dos principais acervos sobre a Literatura de Cordel e um dos maiores da América Latina. A coleção está disponível para consulta mediante agendamento e pode acessada por meio da base de dados Biblioteca e pelo site Cordel: literatura popular em verso, dedicado à divulgação da obra de 21 cordelistas – incluindo Leandro Gomes de Barros.

Assessoria de Comunicação
Ministério da Cultura