Boi Tira Teima

“Na entrada da porteira, eu levei uma carreira, do boi preto e branco chamado Boi Tira Teima”

“Nunca vamos desistir deste caminho”. É assim, com voz firme, mas embargada pela emoção, que Roberto Gercino fala sobre a paixão que herdou do pai, mestre Gercino Bernardo da Silva, pelo Boi Tira-Teima, e sobre sua determinação para enfrentar as dificuldades e manter as atividades do grupo. O Boi, que completa 95 anos em 2017, é o mais antigo de Caruaru, município no interior de Pernambuco e celeiro de talentos e de artistas da cultura popular brasileira.

Criado em 5 de outubro de 1922, o Boi Tira-Teima surgiu como mais uma opção para se brincar o carnaval, já que, na época, apenas os mais ricos da cidade pernambucana tinham acesso a bailes, clubes de frevo e escolas de samba. “O Boi abraçou todos”, lembra Roberto, hoje coordenador da agremiação. Com o tempo, outros bois foram criados e passaram a brigar entre si. As disputas, chamadas de teimas, deram origem ao nome do grupo.

Ao som de instrumentos como tamborins, surdos e ganzás, as apresentações do boi ocorrem durante o carnaval, as festas juninas, a Semana Santa e o Natal, encantando o público com seus personagens e histórias. Na trama do folguedo, a grávida Caterina pede a Mateus para comer a língua do boi. Mateus então mata o boi, mas o fazendeiro quer o animal de volta e orações são feitas para que o boi reviva.

Mestre Gercino faleceu em 2011, com 88 anos. A herança do lendário Boi Tira-Teima não ficou apenas para seus descendentes. Segue girando as cidades com seus quase 50 integrantes, a maior parte da família Gercino, que – além de Catarina e Mateus – interpretam personagens como a burra, o cavalo, as pastorinhas, o jaraguá, a ema, o pica-pau, a morte, o satanás, a cigana, o caipora, o índio e o babau.

Esposa de Mestre Gercino, Dona Lindaura, 82 anos, recebe a equipe do Ministério da Cultura (MinC) em sua casa, acompanhada dos filhos Adalberto e Roberto, para contar a história do Boi Tira-Teima. “Mas rapaz, vocês vieram até aqui, esse trabalho todinho!”. É um percurso de 15 minutos de carro do centro até os limites da cidade. Primeiro, asfalto. Depois, terra. No caminho, perto do ponto de ônibus, há sempre um balde d´água para que os pés não cheguem sujos nas apresentações.

“Dos meus filhos, qual é o mais velho? O Tira Teima. Aí Adalberto diz: ´Oxi, mãe! A senhora quer botar eu no recanto pra botar o boi?´ Eu digo: ´É não, meu fio, é porque o boi já tem noventa e poucos anos e você só tem sessenta”, ri dona Lindaura.

Nesses quase 100 anos, o Boi já teve muitos donos. Começou em 1922 com Pedro Zamoi. Passou pra Seu Alfredo, depois para Antônio Vaca Braba e então para Zé Pintor, com quem ficou até 1970, quando ele, cansado, o ofereceu por 50 mil réis a um dos brincantes chamado Gercino: “O meu conhecimento eu só vou vender a você”, relembra Dona Lindaura. “E eu vou comprar com quê? Eu não ganho dinheiro pra dar de comer aos filhos”, respondeu Mestre Gercino. Zé Pintor ofereceu condições: “Você vai pagando de 20 (mil réis). De 10. Aí você chega lá”. Lindaura, que já era casada com Seu Gercino, conta que foi a responsável pelo arremate: “Compra, Gerson, pra divertir os meninos!”. Lindaura teve 22 filhos.

 

Memória de Infância

 

O boi já fazia parte do imaginário do casal desde a infância. Mestre Gercino se escondia debaixo da saia de sua mãe pra poder ver a apresentação. Dona Lindaura ia também e, quando o juiz (que fiscalizava a presença de crianças na rua à noite) aparecia, corria pra se esconder no galinheiro. Quando compraram, já brincavam no boi há muitos anos, inclusive acompanhados de alguns filhos.

Para falar sobre o Boi, dona Lindaura, com sua vozinha mansa, precisa contar da vida. “Eu era muito carente, né?! Muito triste. Depois que a gente formou esse boi, me chegou uma luz”. Ela recorda que, quando completou oito anos, sua mãe lhe falou: “De hoje em diante, eu não faço nada dentro de casa. Você vai fazer”. Aos 16, casou-se com Gercino. Improvisaram um quartinho até conseguirem subir uma casa, com tijolos que ela fez. Trabalhou na casa de farinha. Aprendeu a costurar para vestir os filhos, entre eles o Boi, que estava com a roupa velha quando o compraram e, a cada apresentação, perdia um pedaço. “A gente trabalhava e, quando era no fim do mês, comprava uns cinco metros de pano. E quando foi pra vestir o boi, ele tinha as roupas, graças a Deus! Demorou porque é muito tostão. Quer dizer, não é nada. Mas pra quem não tem é demais.”

“A sobrevivência não vive por brincar, vive pra existir”. Quem solta a frase é o filho Roberto, que, ao assumir o Boi no lugar do pai, passou a vivenciar toda a sorte de dificuldades que o pai conseguiu superar para manter a tradição. Ele se emociona ao constatar que envelheceu e faz exatamente como os pais: “Muitas vezes, quando eu vi o pai e a mãe tirando dinheiro da aposentadoria pra comprar tecido, tinta, chita, eu dizia: ´mas deixem de ser besta, quem tem de fazer isso não é vocês, não´. E hoje, eu tô tirando do meu bolso”. Roberto faz uma longa pausa, com os olhos cheios d’água.

Então Adalberto, o filho mais velho depois do boi, sente necessidade de explicar a emoção do irmão: “O boi é um membro da família, né?! Porque quando a gente se prepara pra sair com ele, junta todo mundo, até mesmo os que não podem. Eu não tô mais podendo sair, mas eu fico vibrando.”

Após a fala do irmão, Roberto recomeça seu raciocínio: “A sobrevivência não vive por brincar, ela tem que viver por existir, a gente faz cultura e trabalha pra comer. Eu sei que os projetos e as oportunidades existem, mas, às vezes, nós que não sabemos como entrar não sabemos como fazer, como conquistar. A estrada é longa e aí a gente pede ajuda. Não pode desistir, senão nossos seguidores vão ficar pelo caminho. A gente já está vendo algumas linguagens sendo extintas. Porque tem crianças que o pai fazia xilogravura, fazia pífano, aí o filho pensa, mas pra que eu vou fazer igual se ele nunca conseguiu dinheiro? Mas a luta não é em vão”. E a família segue caminhando com emoção e o prazer que o Boi proporciona, inspirada pelo Mestre Gercino.

“O pai era um homem semianalfabeto, mas ser mestre é essa grandeza, de colocar coisas pra gente degustar, ver, escutar. Coisas que, às vezes, a gente até duvida”, conta Roberto. “Eu costumo dizer que o boi, pra mim, é um símbolo de verdadeira resistência. Não tenho outra palavra a dizer a não ser esta”.

Texto: Cecilia Coelho e Janine Moraes
Fotos: Janine Moraes
Vídeo: Guto Martins
Edição: Alessandro Mendes
Assessoria de Comunicação
Ministério da Cultura